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Sem estresse: os desafios para o Rh em tempos de crise
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

por Heloisa Pereira

 

Quando o RH se torna peça-chave nas negociações entre empregadores e empregados, os profissionais da área precisam estar preparados para lidar com os desafios e a pressão. E isso está acontecendo desde meados de setembro de 2008, em decorrência da crise financeira internacional. Uma pesquisa realizada pelo instituto Datafolha constatou que um terço (31%) dos lares paulistanos tem alguém que perdeu o emprego nos últimos seis meses. E já se pode sentir o impacto da redução de empregos no consumo: um terço (32%) dos que continuam empregados afirma ter desistido de comprar algum produto ou bem nos últimos seis meses.

 

As negociações em busca de alternativas para as demissões – como o fim das horas extras, a redução de jornada e as férias coletivas – já acontecem desde o início do ano, e o RH é um importante player neste momento. O CanalRh ouviu os consultores Willian Bull, da Mercer, Carla Machado, da ADP, e Fátima Braga, da Ohl Braga Desenvolvimento Empresarial, procurando saber quais competências, cuidados e estratégias estão sendo exigidas desses profissionais.

 

CanalRh: Quais são os principais complicadores desta crise, e como lidar com eles?

Bull: Alguns dos principais complicadores foram a velocidade com que a situação geral se deteriorou e o extremo grau de incerteza que alcançou a todos, gerando muito medo e ações de contenção às vezes desmedidas. Para minimizar a insegurança e o desconforto, a função de toda liderança, não só do RH, é trazer informações articuladas e fidedignas para que se estabeleça um diálogo e uma situação de correto entendimento do que se passa com a empresa e com o seu segmento de atuação.

 

Fátima: Em momentos de crise a transparência é a alma do negócio. Envolver gestores e profissionais nas decisões da empresa é essencial e vital para o sucesso nestes cenários. É importante que os profissionais entendam a real situação, os prós e contras para a empresa. Quando existe compreensão do fato fica mais fácil vestir a camisa e ter uma reação pró-ativa. Quando você está consciente da situação você também faz parte da solução.

 

Carla: As iniciativas devem ser transparentes, claras, objetivas e sempre devem vir acompanhadas de explicação. Comunicar nunca é demais! Se possível, também devem ser mantidos programas que visam a qualidade de vida nas empresas.

 

CanalRh: Quais são as competências que um gestor de RH precisa ter para lidar com situações de adversidade?

 

Fátima: Como todas as demais áreas, o RH também deverá contribuir mantendo um forte rigor no acompanhamento de custos e na aferição dos resultados. E, para que consiga implementar esta postura, será necessário ter transparência e clareza de comunicação sobre a situação. Além disso, serão importantes sua legitimidade e credibilidade junto aos profissionais e gestores da empresa, a visão do negócio e do mercado e a inovação na busca de soluções para velhos e novos problemas do atual contexto, buscando metodologias e ferramentas atuais no gerenciamento dos talentos.

 

O RH deve aproveitar esta ocasião para reavaliar questões estratégicas como o modelo organizacional e a sua política de bônus e remuneração, e melhor adaptá-los à nova realidade. São duas as preocupações básicas: manter o clima e o desempenho organizacional e reter os profissionais de alto potencial e desempenho que garantam a sustentabilidade da empresa.

 

Carla: A todo momento, os profissionais de RH devem estar atentos ao negócio, aos acionistas, aos clientes e às pessoas. É preciso ter um posicionamento estratégico, ver além, estar “antenado” ao que há de novo no mercado, ter um ótimo benchmarking para trocar experiências e, acima de tudo, servir como exemplo.

 

Bull: Lidar com a pressão, ter visão em longo prazo e clara noção de custos. Saber usar a cabeça, o coração e a coragem será um diferencial. Usar a cabeça é deixar um propósito claro, prover direção. Usar o coração significa, nestes momentos mais do que nunca, a maturidade, a capacidade para criar confiança e a flexibilidade para dialogar com uma gama de pessoas e situações bem distintas. Coragem é fazer a coisa certa, baseado em valores claros. Ter tenacidade, persistência, e a habilidade para superar os obstáculos, tomando decisões duras e necessárias quando preciso.

 

CanalRh: Experiência é algo que conta muito nesse momento difícil?

Carla: Sem dúvida que sim, em todos os momentos. Calma, tolerância, experiência e atitude são fundamentais.

 

Bull: A experiência conta muito. Nos ajuda a evitar erros cometidos no passado e nos ajuda a desenvolver uma perspectiva adequada para argumentar e negociar. Entretanto, a experiência não será a única a contribuir para as soluções, pois é preciso uma boa dose de humildade para lidar com situações novas e quase sem precedentes.

 

CanalRh: Qual a importância dos profissionais de RH em momentos como este?

Bull: O RH assume relevância, pois pode auxiliar na tomada de decisões e na implementação de medidas, na maioria difíceis para a empresa e para a força de trabalho. Existe uma boa parte de gestores que pensa na redução de empregos para reduzir custos. A lógica deveria ser invertida, ou seja, como reduzir custos para preservar empregos. Embora a gravidade das medidas de adequação varie muito para os diversos setores da economia mais ou menos afetados, o ponto de partida é ter sempre em vista a estratégia do negócio e a estratégia de capital humano a ser adotada.

 

Carla: Não somente nos momentos de crise, mas em todos os momentos, o RH cada vez mais deve se posicionar de forma estratégica, ou seja, voltado para pessoas sem esquecer as demandas e necessidades do negócio e do mercado. Não só os profissionais de RH, mas todos devem estar atentos e propor iniciativas que visem redução de custos e impactos positivos nas organizações e nas pessoas. Entre os exemplos estão as renegociações de contratos existentes, iniciativas como benefícios flexíveis entre outras.

 

Fátima: Em cenários conturbados como este o papel do profissional de RH deve ser o de tranqüilizador, não no sentido de pôr panos quentes, mas no sentido de dar transparência aos fatos de modo a ajudar o profissional a perceber a empresa dentro das perspectivas atuais do mercado. Cabe ao RH a missão de colaborar com a empresa no acompanhamento dos custos e na aferição dos resultados. Para isso é preciso que a área tenha instrumentos e ferramentas que a auxiliem a monitorar a produtividade e performance dos talentos da empresa.

 

CanalRh: O gestor de RH também "entra em crise"? Há uma pressão psicológica muito grande sobre esses profissionais?

Bull: Claro que sim. Mas não dá para ficar nela. Um pássaro pode pousar inadvertidamente sobre você, mas você não o deixará fazer um ninho, deixará? Não dá para ficar em crise. Mas também não dá para alcançar o equilíbrio sem altos e baixos, idas e vindas...

 

CanalRh: Que resultados lhe dão a certeza de ter escolhido as medidas certas?

Fátima: Acho que os melhores termômetros são o clima interno na empresa e os resultados que ela consegue obter após as decisões tomadas. Manter a produtividade e a motivação dos profissionais para enfrentar as dificuldades e manter no quadro funcional os melhores profissionais são também bons sinalizadores de que a empresa está conseguindo se sair bem neste contexto.

 

Ao RH cabe fazer a sua lição de casa neste momento. É preciso que se debruce sobre seus processos internos e organize de forma diferente os seus talentos. A hora pede soluções criativas e inovadoras (renegociar contratos de terceiros, férias coletivas, licenças não remuneradas etc.). É preciso reavaliar a política de bônus e remuneração e adaptá-los à nova realidade. Por fim, é essencial que o RH ajude a empresa a desenvolver ferramentas de retenção de profissionais de alto potencial e a conhecer os seus indicadores de desempenho.

Comentários
Émuito importante RH estar alinhado com tudo o que acontece, sem esquecer seu papel de iniciador de grandes movimentos e desenvolvimentos. No entanto nestes tempos de crise RH precisa redesenhar suas atividades, bem como do cenário que está se formando. Aos Talentos que restam , a necessidade de compartilhr com eles as estratégias do negócio, hora de Brainstorming. Para os que (re)iniciam na organização a necessidade das competências de intensidade operacional e flexibilidade. Para nós consultores , o momento de projetos que redesenham os planos de sucessão , os organogramas ou projetos fortes de couselling. O importante é seguir a dinate com as nossas especialidades, conhecimentos e diversificação neste ramo de desenvolver gente para o negócio.
Postado por Maria Antonia Terán   em 25/2/2009 - 01:41
Sem dúvida todos estes comentários são válidos, principalmente no que se diz respeito a "manter os talentos existentes". é hora de fortalecer os vinculos com estes talentos e envolve-los nas discussões acerca da situação, mesmo que esta seja percebida em um primeiro momento como "de não interesse". è hora de muito brainstorming, pois um novo cenário vem apontando o horizonte dos negócios. Precisamos inventar formas de fazer, de rever os organogramas , as competências necessarias para a sustentabilidade do negócio, como por exemplo a presença de uma alta intensidade operacional e flexibilidade. Para os consultores é a "hora dos projetos" de falar de plano estratégico de sucessão e de suportar os que estão em busca de recolocação com muita informação sobre os novos desafios para adaptação ao novo contexto.
Postado por Antonia Terán   em 24/2/2009 - 11:21
Muito importante é o debate pelos profissionais de RH acerca das novas variáveis do negócio. Essa matéria vem chamar ainda mais, os envolvidos na gestão, para uma abordagem estratégica de RH , que contribua com seu toque humano sempre porém, racional e sobretudo ético para fortalecer a imunidade da Organização em todos os níveis. O trabalho em equipe também é bem-vindo!! Parabéns pela matéria.
Postado por Lorena Baumann   em 20/2/2009 - 12:10
Gostaria de sugerir o Benchmarking realizado anualmente pela Sextante Brasil, que através dos indicadores em Gestão do Capital Humano aliado aos negócios, tem atuado como ferramenta estratégica para a tomada de decisões. O RH ganha em objetividade e foco, apoiando assertivamente os demais gestores da Organização.
Postado por Crislaine Lago   em 20/2/2009 - 09:50
Parabens !!! pela materia e não poderia ser mais oportuna as dicas e comentarios dos profissionais citados. O momento é de CRISE porem tire o "S" e crie um novo panorama para voce e para organização. Marcos Reimann Diretor de Negocios BPO.
Postado por marcos barbato reimann   em 20/2/2009 - 07:56