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Na era da comunicação
por heloisa pereira foto cia de foto  |  Ano 2010 - Nº 74 - janeiro / 2010
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Muitos meios são sinônimo de eficiência na comunicação? Ou, com a multiplicação de tecnologias, as pessoas falam mais e se entendem menos? Há mais de 1,6 bilhão de pessoas conectadas no planeta, de acordo com a International Data Corporation (IDC). Essa multidão gera dez petabytes de informações diariamente, quantidade equivalente a oito vezes o conteúdo das bibliotecas dos Estados Unidos. Entre os celulares, são 4 bilhões de aparelhos em operação, informa a Telecoms & Media. A tecnologia está em todos os lugares, as pessoas falam, blogam, twittam, porém, no final das contas, a eficiência dessa comunicação ainda é uma incógnita. Ao invés de navegar, as pessoas podem naufragar no mar das informações.

 

No caso do engenheiro e consultor Leonel Braga, a interconexão funcionou muito bem. Ele passou cinco dias úteis nos EUA para atender ao pedido de uma filha. “Não havia como justificar para meus clientes que eu ia dar um pulinho nos EUA para resolver problema de filha”, conta o executivo. A jovem faz intercâmbio no Colorado e pediu colo ao pai. Braga desmarcou reuniões presenciais, afirmou que estaria à disposição no escritório e garantiu atendimento por internet e telefone. Durante os cinco dias, todas as pendências, decisões e contatos foram realizados a distância, e os clientes nem imaginavam que Braga estivesse fora do Brasil. Problema resolvido, pai e filha felizes e com saudade matada, e clientes satisfeitos graças à tecnologia. “Os meios de comunicação aceleram o trabalho”, diz, “mas há coisas insubstituíveis, como o olho no olho na hora de negociar e fechar um contrato”.

 

Mas nem tudo funciona no universo da tecnologia, defende Luis Eduardo Ribeiro dos Santos, presidente da Matel, empresa do ramo de veículos. “O que as pessoas fazem com o e-mail era feito, no passado, com o memorando. Quando uma pessoa não sabia resolver um problema, ela passava um memorando tentando se eximir dele, lembra Santos. Hoje, ela passa um e-mail. “É um instrumento ótimo como correio, mas uma involução na comunicação entre os funcionários.”

 

Há uma nova forma de experimentar o mundo, iniciada pela comunicação em tempo real, afirma Eugênio Trivinho, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura (ABCiber). Ela acontece entre o local – onde está o corpo – e o global – o contato via tecnologia com pessoas e eventos que estão ocorrendo, no mesmo instante em outro lugar. Essa experiência, chamada de glocal, nos permite interagir de forma inédita com o outro ou com a imagem do outro que chega até nós. Nossa geração está tendo a oportunidade de experimentar um fenômeno jamais vivido, mas que, a partir de agora, será para sempre.

 

Braga, o engenheiro, já faz parte dessa nova realidade: pode ser encontrada por celular, rádio e e-mail. As tecnologias, acredita ele, otimizam tempo e dinheiro, em razão de seu permanente deslocamento entre os Estados do Rio de Janeiro e São Paulo, atendendo a capital e interior. Seu gasto aproximado em telefonia e internet é de R$ 800 mensais – período durante o qual ele gasta 1.120 minutos (ou 18h30) falando ao telefone ou lendo e-mails. Santos, o presidente da Matel, por outro lado, aprecia as novidades com moderação – ele não gosta de falar com máquinas. Grande parte do gerenciamento de e-mails, serviços de atendimento ao consumidor até os saques no caixa eletrônico são resolvidos pela secretária. “Mas a vida vai empurrando você para isso”, diz o executivo. Sua surpresa maior foi quando, para embarcar num avião, precisou passar por um totem. Mesmo entendendo que o mecanismo foi criado para lidar com grandes volumes de passageiros, a necessidade de lidar com os botões o incomodou: “Eu prefiro um relacionamento humano”.

 

Entre a pressão e a euforia

 

Maurílio Biagi Filho, CEO da Maubisa Consultoria, desenvolveu um sistema peculiar de trabalhar. “Não tenho a máquina comigo, meus e-mails são recebidos pela minha secretária, que filtra o conteúdo e traz ao meu conhecimento apenas os assuntos que dependem da minha decisão”, explica. Dessa forma, Biagi ganha tempo e não precisa conviver com a “ansiedade” da tela. Mas há desvantagens: “É mais caro, por exemplo”. A estratégia tem funcionado, entretanto parte do sucesso se deve à sua equipe de funcionários. “É fácil arrumar um bom computador, o difícil é encontrar uma boa secretária”, comenta Biagi, satisfeito.

 

Gerenciar pessoalmente contatos, redes e informações foi a opção de Roberto Heidtmann,

gerente de TI da Evialis (dona das marcas Purina e Socil, de alimentação animal). Ao transitar entre Descalvado e Paulínia, cidades do interior de São Paulo, onde estão instaladas duas das fábricas brasileiras da empresa, Heidtmann responde e-mails pelo smartphone. Mobilidade é a regra, especialmente para quem trabalha em uma companhia com presença industrial em 16 países. O aparelho utilizado no trabalho serve também para uso pessoal – nunca está desligado. A qualquer momento, ele pode receber uma mensagem via messenger ou ser contatado para resolver um problema. “Não escapo da curiosidade humana de saber o que está acontecendo, mas evito que vire um vício.”

 

Separar as atividades pessoais e profissionais é uma tarefa constante, no entanto, Heidtmann acredita que, sabendo o momento certo e quanto tempo gastar com tais recursos, é possível controlar todas as ferramentas. Categorias profissionais que ocupam cargos de gestão, chefia e liderança precisam, por razões de operacionalidade do próprio campo profissional, estar conectadas o tempo todo, afirma o professor Trivinho. A atuação em rede pode ser feita por conta própria (com maior velocidade) ou com a ajuda de outras pessoas. “Análise de dados da rede, contato com o cliente, gerenciamento de e-mail e planilhas, conexão com as instâncias de decisão da empresa e assim por diante expõem essas pessoas a uma pressão constante”, acredita. “Mas a pressão que vem do campo profissional é apenas um epifenômeno de exigências antropológicas maiores.”

 

A necessidade de interconexão constante se reflete na expansão do modelo capitalista de sociedade em que vivemos. O mercado pressiona justamente porque ele não é uma entidade separada do processo civilizatório (a forma como aprendemos a viver em sociedade). Pelo contrário, explica Trivinho, o mercado de trabalho é o espaço onde o ser humano atua, constrói, isto é, produz e reproduz o capitalismo cognitivo. E os executivos superconectados são a ponta desse processo. Porém, muito embora o processo seja globalizante, há um caminho para aqueles que não querem fazer parte da roda-viva da tecnologia: “O cidadão, por vontade própria, autoexclui-se; ele diz ‘não quero’; se isso é vantajoso ou desvantajoso, não se pode afirmar, cada um sabe o que é melhor para si.”.

 

O limite da privacidade

 

Ele está presente em redes como Facebook e Twitter, contudo não adianta procurar. Marcos Cuzziol, gerente do laboratório de arte e tecnologia do Itaú Cultural, só usa perfis anônimos. “Privacidade é um luxo que está ficando cada vez mais raro”, diz o executivo, que também aboliu o uso do celular. “Acredito que muitos usuários da rede, de comunidades virtuais, não têm problema nenhum em perder a privacidade”, afirma, lembrando que as informações de perfis de usuários já são utilizadas hoje por empresas de marketing e vendas para definir público- alvos para produtos, por exemplo. Para ele, essa é uma evolução do marketing e não é intrinsecamente ruim. “Mas é algo de que eu tento fugir.” Por isso seus perfis são anônimos.  Não ter celular foi uma decisão tomada quando ainda trabalhava com automação industrial. Na mesma época, Cuzziol estava abrindo uma empresa de games e começou a cursar mestrado.

 

Gerenciar bem o tempo tornou-se uma necessidade. “Comecei a notar que quando eu parava o que estava fazendo para atender o celular, havia um desperdício enorme de tempo para retomar a atividade do ponto em que tinha parado.” Havia casos em que as ligações diziam respeito a problemas na empresa ou decisões de trabalho a serem tomadas, porém muitas delas eram inoportunos serviços de telemarketing. “Então experimentei deixar de usar o celular e gostei; estou sem ele até hoje”, conta. Para compensar, Cuzziol passa quase o tempo todo conectado à internet, vê e-mails de meia em meia hora e usa o telefone fixo. “Evito ligar para os celulares dos outros também, porque nunca sabemos onde a pessoa vai estar.”

 

O Brasil já possui cerca de 65 milhões de usuários de internet, 30 milhões deles estão no Orkut, a rede social mais popular no País. Romeo Busarello, gerente da Tecnisa, acha que a exposição no Orkut é maior do que em outras redes, e resolveu ficar fora, no entanto é usuário do Twitter, LinkedIn, Naymz e Facebook. Participa desde 1999 e está convicto de que sua rede de contatos lhe é útil. “Utilizo, tenho muitos contatos e conheço pessoas interessantes online, mas sou muito criterioso.” Na rede social de microblogging Twitter, Busarello acompanha 198 usuários e é acompanhado por outros 828, enquanto possui mais de 500 contatos no LinkedIn, uma das principais redes corporativa da internet. As ferramentas lhe potencializam o networking: no LinkedIn, há como recomendar conhecidos para outros profissionais. Mas ele acessa as redes de forma regrada. Diz passar, em média, 20 minutos por dia, nos os dias úteis, e duas horas, aos finais de semana, na atividade. “Se a pessoa não for disciplinada, pode se perder.” Antes das redes, já dedicava quase cinco horas por final de semana para seus estudos com livros e revistas; agora os complementa acessando seus contatos na internet. E tudo compensa as despesas. “O gasto com internet existem, mas são compensados com as ótimas referências e contatos que mantenho.”

 

Entendendo a cibercultura

 

O fenômeno da comunicação, conforme visto na reportagem, pode ser compreendido em três dimensões: a dimensão prático-funcional, a dimensão subjetiva e a dimensão antropológica. Na dimensão prático-funcional, o que percebemos é que as pessoas sentem a necessidade, por pressão do contexto, de estar disponíveis e conectadas o tempo todo – no mercado de trabalho,

no cumprimento de tarefas do cotidiano, na relação familiar, na relação com amigos etc.

 

Na dimensão subjetiva, a necessidade de conexão é sentida por carência estrutural do outro numa época marcada pela comunicação, ou seja, há um processo social de distanciamento físico das pessoas e a rearticula- ção delas ao nível do imaginário. A comunicação separa, no âmbito físico e, ao mesmo tempo, une as pessoas no imaginário e no simbólico.

 

A terceira dimensão é antropológica e engloba, de certa forma, as outras duas. Ela exige a experiência do glocal. O desejo do glocal é o desejo da experiência em tempo real, da imersão, e é tão sedutora que acaba por recobrar toda uma necessidade não justificada ou não justificável de ser experimentado. Historicamente, é a primeira vez que o ser humano tem contato com esse tipo de experiência. Mas a civilização mediática deixa a cada individuo a tarefa de aprender a se virar sozinho nesse novo contexto.

 

Eugênio Trivinho, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura (ABCiber).

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