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Eles são versáteis, sabem lidar com o imprevisível e possuem experiência em situações de instabilidade econômica: esses foram os principais motivos para a valorização dos profissionais brasileiros expatriados durante a crise. Além disso, o País possui uma economia emergente. É interesse das grandes empresas que atuam no Brasil que seus executivos possuam experiência internacional – garantindo, na volta às terras verde-amarelas, a consonância da base local com a linha de atuação global da companhia.
“Brasileiros normalmente têm sucesso lá fora, pois já enfrentaram muitas oscilações econômicas – que ajudaram a desenvolver a flexibilidade inerente aos nossos executivos”, afirma Alexandre Sabbag, sócio da Passarelli Consultores. Em grande parte dos casos, avalia, a expatriação é bem-sucedida.
“Os profissionais que saem costumam ser pessoas de destaque: isso é como um selo de qualidade para a unidade que irá recebê-lo; além disso, o brasileiro tem alto poder de adaptação, pois vivemos em uma sociedade muito mosaica”, defende o consultor.
O atual gerente do grupo de Marketing da Wyeth Pharmaceuticals Brazil, Rodrigo Reis, passou por essa experiência. Foi expatriado em 2007. “Recebi a oportunidade de trabalhar como gerente de Produto na matriz da Wyeth, na Filadélfia, EUA”, conta. A experiência seria temporária, de dois anos, e Reis cuidaria do lançamento de um produto novo. Em 2008, porém, a crise financeira impactou os planos da empresa e uma reestruturação tornou-se necessária. “Mais de mil postos de trabalho foram fechados”, comenta ele , “e o lançamento de um remédio genérico, que estava programado, foi alterado”. Em 2009 houve nova reviravolta: a companhia foi comprada pela Pfizer, e abriram-se três opções para Reis: continuar na matriz, ir para outro país da América Latina ou voltar ao Brasil. “Preferi voltar; a questão cultural e a situação mais estável do País pesaram muito na decisão”, afirma o profissional, que retornou em maio de 2009.
“A imagem do Brasil no exterior é de crescimento”, acredita Ivan Naves Sossai, after sales da Dabi Atlante para os dealers mundiais. O brasileiro, que morava na Inglaterra e trabalhava no Redcliffe College (Gloucester), recebeu o convite para a vaga em janeiro de 2009. O contato anterior com a empresa e o apoio do export menager, o também brasileiro Fábio Fonte, que o conhecia de atuações anteriores, foram decisivos para a indicação, mas o perfil nacional ajudou: “O brasileiro é talentoso e os desafios que já enfrentamos, em linhas gerais, faz com que tenhamos uma grande capacidade de improviso, de criar soluções alternativas, aspectos que são bem vistos por aqui.”
A expatriação de brasileiros antes da crise vinha aumentando, de acordo com a percepção de Luiz Alberto Panelli, sócio da Panelli Motta Cabrera Consultores, ligada ao The Amrop Hever Group. “É claro que, com a nova conjuntura, os números se adaptaram” –, esclarece, “mas os efeitos da crise não afetaram significativamente essa prática”. A ênfase é maior entre os profissionais de Business Unit, do setor financeiro, de TI e de Logística, informa Panelli. “Em Logística, a extensão e a falta de infraestrutura no País são consideradas uma escola à parte, que forma profissionais com grande competência e capacidade de enfrentar desafios.” No próximo ano, a situação brasileira deve favorecer ainda mais a expatriação. “Com o fortalecimento do Brasil no cenário internacional e sua saída mais rápida da crise financeira, as boas possibilidades de negócios estão voltando”, acredita.
Seja fora ou dentro do território nacional, as boas oportunidades têm, realmente, atraído a atenção dos executivos globais. Thomas Gierse, diretor da unidade Cardiometabolismo da Sanofi-Aventis, recebeu esse cargo após voltar da França, para onde havia sido enviado em 2007. “Na verdade, o objetivo da expatriação nâo era passar muito tempo fora, e, sim, voltar para continuar a atuar na minha unidade de origem”, comenta. No entanto, a importância da experiência, garante ele, é enorme, e os investimentos da empresa são grandes. Gierse atuava, na época, como gerente de Marketing, e surgiu uma vaga para a mesma função no setor Intercontinental, para onde ele foi transferido. “Quando o profissional é expatriado, a expectativa é de que ele tenha uma visão completa de como os negócios funcionam”, diz Gierse, destacando que somente aqueles que estão preparados são chamados para trabalhar fora do País. Aliado a isso, o ponto forte do brasileiro, acredita o executivo, é saber se adaptar a ambientes adversos: “Conseguir interagir com pessoas diferentes, de diversas nacionalidades, ser inovador, ter cabeça aberta para novas ideias, isso tudo é percebido e valorizado pelos estrangeiros”.
Expatriação: o caminho dos grandes talentos
Há dois motivos principais para a expatriação. Para as empresas de capital nacional, essa prática representa o crescimento dos negócios no exterior e o investimento cada vez maior na internacionalização. Já nas companhias transnacionais, ela faz parte do plano de desenvolvimento de carreira dos futuros líderes. Foi o que ocorreu com Thomas Gierse e com outros executivos da Sanofi-Aventis.
“Em dezembro de 2008, havia 367 profissionais expatriados”, conta o diretor de RH da empresa, André Rapoport. O número refere-se ao contingente global de trabalhadores – mais de 98 mil funcionários em 100 países. Nos últimos três anos, dez brasileiros receberam essa oportunidade, a maioria com passaporte carimbado para Paris. É uma prática importante da gestão estratégica, garante o diretor de RH. “O custo é alto e pode não dar certo, mas é algo que as empresas se propõem a promover”, afirma. Na maioria dos casos, ou não existe o profissional específico disponível naquela unidade, ou a expatriação está dentro da estratégia de carreira em que a pessoa é exposta a um desafio semelhante ao cargo em que assumirá na unidade de origem, porém em um escopo diferente.
“Quando a empresa tem um gerente de alto potencial e vê que ele pode crescer, mas identifica que precisa adquirir experiência e networking, ele é enviado a outro país ou para a matriz”, explica Rapoport. Antes de enviar o profissional para o exterior, é feita uma análise de seu potencial, do desempenho e seus interesses de carreira. “Também pensamos, cada vez mais, na dual-career: a carreira do cônjuge”, diz o diretor. “Não podemos expatriar um executivo cuja esposa não gostaria de sair do País; é um complicador muito delicado a se observar.”
Para os expatriados, o grande ganho é o aprendizado, tanto profissional quanto cultural, sociológico ou antropológico, destaca Rapoport. “É claro que ele ganhará um adicional em seu salário, geralmente entre 20% e 40% (depende da posição); mas esse não é o maior atrativo para esses profissionais”, comenta. Os contratos da Sanofi-Aventis são de três anos, prorrogáveis por mais três. Metade dos expatriados fica no exterior por mais de um contrato. “Porém é bem difícil alguém não voltar à unidade de seu país de origem”, constata. Durante a crise, Rapoport afirma que não houve mudanças na política de expatriação.
De acordo com uma pesquisa realizada pela consultoria Hay Group, a Sanofi-Aventis está entre a minoria: apenas 33% das empresas pesquisadas não realizaram modificações no programa de expatriação com a chegada da crise. Entre as 67% restantes, 33% diminuíram as vagas, 19% fizeram uma revisão de valores no pacote recebido pelos executivos e 11% optaram por repatriar profissionais. A expectativa, no entanto, é de que esse número volte a crescer: 74% das empresas pretendem manter ou aumentar a quantidade de executivos expatriados em 2010.
O Brasil vira destino
Se, por um lado, os profissionais brasileiros estão mais valorizados no exterior, por outro, vir trabalhar no Brasil deixou de ser uma estratégia exótica. A boa recuperação do País no pós-crise e o fortalecimento de sua imagem internacionalmente contribuíram para que a opção de voltar fosse, em alguns casos, a melhor delas.
A jornalista Tatiana Aoki descobriu, no Japão, que as oportunidades estavam se abrindo do outro lado do mundo: no Brasil. Foi expatriada em 2008, pela Editora JBC, para trabalhar como correspondente em Nagoya, onde era responsável por três publicações. Ao final do quinto mês de atividade, a iminência da crise levou a editora a fechar o escritório e oferecer a ela um modelo flexível de contratação. Tatiana recusou. Encontrou emprego em uma empresa de telefonia, mas não estava satisfeita. Por meio de seus contatos no Brasil, recebeu uma indicação para trabalhar em uma emissora de televisão nacional. Voltou, conquistou o emprego e percebeu a diferença: “A crise foi a pior de muitos anos no Japão, havia muitos desempregados e a situação estava difícil; no Brasil, embora a situação não fosse de euforia, havia vagas surgindo e recebi a indicação para trabalhar na Rede TV!”, conta ela.
O porcentual de executivos estrangeiros que atuam no Brasil diminuiu durante a crise. Uma pesquisa, também da Hay Group, feita com executivos de 227 companhias que atuam no Brasil, mostrou que, em julho de 2008, 48% dos executivos eram estrangeiros. Em 2009, essa parcela caiu para 43%. A mobilidade de executivos tem alto custo para as instituições e, durante a crise, a aprovação de programas como esses ficou mais rigorosa. Entretanto a tendência é de que o número volte a crescer com o restabelecimento da economia. “O ano de 2009 foi de muitas incertezas, mas cada vez mais as empresas nacionais estão intensificando suas operações no exterior e isso provavelmente irá aumentar o número de vagas para a transferência de executivos”, afirma Gustavo Tavares, consultor da Hay Group.
De acordo com a pesquisa, 13% dos estrangeiros que atuam no Brasil estão na posição de principal executivo da empresa, enquanto os outros 87% ocupam cargos de vice-presidentes ou diretores. A grande presença desses executivos em cargos de chefia ocorre, geralmente, porque o Brasil é utilizado como base de diversas multinacionais para o atendimento à América do Sul. Com previsão de crescimento econômico de 5% para 2010 (relatório Focus/Bacen), a expectativa é que o País se torne, ainda mais, ponto de chegada para executivos de outros países.



















